Xiru Lautério "O PERSONAGEM MAIS BAGUAL DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS BRASILEIRAS"

15 de jul de 2010

VIAGENS



O TOURO DOS PAMPAS E A DEUSA DO JACUÍ


Lendo nos jornais sobre a parada da balsa do Jacuí, lembrei de uma viagem que fiz em maio, passado, quando fui a Santa Cruz do Sul acompanhando minha prima, a arquiteta Rosane Moraes, que estava dando assessoria profissional em uma obra daquela cidade.

Feito o serviço, no final da tarde retornamos para Santa Maria e no caminho decidimos não tomar o desvio, rumando diretamente para a balsa, instalada no rio Jacuí para operar a travessia dos viajantes que antes utilizavam naquele local uma ponte, recentemente levada pela fúria das águas, arrastando consigo algumas vidas humanas.
Soube que a maioria dos viajantes procura evitar a balsa, por causa das longas filas de espera que se formam. Ouvi falar que em certas ocasiões a fila torna-se tão grande que os viajantes têm que esperar longas horas aguardando para embarcar. Um transtorno chato, para qualquer um, apressado ou não.
Pela manhã, na ida para Santa Cruz, evitamos esse possível transtorno, tomando o “desvio”, como é chamada a rota alternativa, que cruza pela quarta colônia. É um belo trajeto, totalmente asfaltado, que passa por lindas e pitorescas paisagens, vale a pena tomá-lo.
Enfim, curiosos, na volta resolvemos conhecer a “Deusa do Jacuí”, sugestivo nome da balsa e lá fomos nós.
Depois de pequeno transtorno, devido à má sinalização na estrada, em que fomos parar no canteiro de obras da empresa que esta construindo a nova ponte sobre o rio, chegamos finalmente ao acesso à balsa.
Para nossa surpresa, não havia fila e logo embarcamos orientados por um funcionário que nos sugeriu tomar a esquerda e estacionar atrás de um automóvel passeio.

Sensação estranha me invadiu, já havia anoitecido e estávamos ali, sobre uma balsa, para varar o rio. Era como se tivéssemos voltado no tempo, até época em que esse era um dos meios obrigatórios para vadear o rio.
Havia várias pessoas sobre o piso da balsa, passageiros que como nós, estavam curiosos com aquela experiência e que haviam desembarcado de seus automóveis para observar, trocar comentários e fotografar, acionando seus celulares e máquinas digitais.
À direita, na margem, observei um rebocador aportado e a esquerda, preso a balsa por uma espécie de cambão de ferro, havia outro. Compreendi que essas embarcações faziam o trabalho de condução da balsa, de um lado ao outro do rio. Enquanto uma trabalha, a outra fica de reserva, assim o serviço não corre o risco de interrupção em caso de pane no rebocador.

Serviço profissional aquele, apesar do sistema antigo, milenar diria. Isso era perceptível observando a segurança e naturalidade com que aqueles homens que trabalhavam ali, exerciam suas funções. E não poderia ser diferente, dada a responsabilidade da tarefa de vadear automóveis e caminhões carregados de pessoas e mercadorias, de um lado ao outro do rio. Certamente a operação dos rebocadores e a condução da balsa exigem experiência e habilitação. Senti isso naquele momento, e percebi que todos nós, curiosos viajantes, naquele instante já não éramos mais somente passageiros de nossos automóveis. Fazíamos parte de uma outra viagem e estávamos a bordo de outra embarcação, que por sua vez, estava embarcada em um sistema viário, supervisionado pela própria Marinha do Brasil. Tchê loco! Coisa importante! Me senti em segurança...

O potente motor do rebocador roncou grosso, alertando a todos que chegara a hora de entrar em seus veículos e se preparar para a travessia. O piloto, demonstrando habilidade em seu ofício, movimentou o rebocador, encostando-o na balsa e empurrando-a em direção ao outro lado do rio. Percorremos pequena distância e logo estávamos na outra margem onde, ao contrário de nós, longa fila de veículos aguardava para cruzar na direção inversa.

Quando a embarcação encostou-se ao outro lado, um trator de esteira estendeu terra e pedregulho sobre sua ponte, parte por onde os veículos embarcam e desembarcam, eliminando assim, de maneira simples e prática, possíveis vãos ou degraus, que pudessem se tornar obstáculo para o acesso.

Desembarquei com uma sensação curiosa, de viajante que vivenciou nova experiência, embora passando por um caminho conhecido e muitas vezes percorrido, mas desta vez, de uma forma diferente. A lembrança mais instigante que me ficou dessa experiência, foi quando li escrito na lateral do valente barco rebocador que conduz a Deusa do Jacuí de um lado ao outro do rio o nome: “Touro dos Pampas”.


byrata@hotmail.com

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